Segurança da informação e cibersegurança: o que esperar em 2027

Não é segredo para quem trabalha no ramo da cibersegurança que a tendência é sempre que os ataques fiquem mais sofisticados, mais incisivos e mais criativos. A cada avanço tecnológico, cada patch de segurança implementado e cada métrica de conformidade alinhada, os atacantes parecem estar somente a um passo atrás de nós — às vezes, até mesmo um passo à frente.

Neste ano de 2026, a inteligência artificial tomou um rumo relativamente previsto, mas em uma velocidade muito maior do que a esperada: ataques que antes levavam semanas de preparação, hoje podem ser lançados em horas, com campanhas de phishing automatizadas por IA generativa e identificação de vulnerabilidades em velocidade inédita.

Nesse meio tempo, as organizações estão correndo para colocar a própria IA sob controle. A previsão do Gartner é de que o mercado global de segurança da informação deva atingir US$ 248,9 bilhões em gastos até o final deste ano e US$ 372,6 bilhões até 2030. Esses dados mostram que a categoria "securing AI" (segurança de IA) do relatório é, hoje, a única do setor de segurança cuja taxa de crescimento acelera ano a ano nesse período, com expectativa de ultrapassar até mesmo "endpoint protection" (proteção de endpoints) em 2029.

É com esse possível cenário em mente que reunimos abaixo as principais tendências e padrões de ataque esperados para 2027 e o que tudo isso significa na prática para os CISOs e gestores de TI no mercado brasileiro.

1- IA agêntica como novo vetor de ataque  

Se esse ano a IA já está acelerando ataques, em 2027 ela deve reduzir drasticamente o tempo entre a exposição de uma credencial e sua exploração. Segundo o relatório mais recente do Gartner, agentes de IA vão reduzir o tempo necessário para explorar contas expostas em 50% até 2027, automatizando o ciclo completo de abuso de credenciais.

Um dos melhores exemplos para ilustrar essa mudança é o vibe hacking: o uso de IA generativa para executar ataques de engenharia social de forma praticamente autônoma. Além de combinar deep fakes de voz e vídeo capazes de imitar de maneira convincente executivos ou colegas de confiança, a GenAI elabora scripts de conversa gerados e ajustados em tempo real.

Com tal tecnologia em mãos, o atacante não precisa mais dominar técnicas de persuasão: a própria IA é capaz de avaliar o "clima" da conversa e adaptar o discurso sozinha, tornando o golpe convincente até mesmo para quem já foi treinado para reconhecer phishing tradicional.

Considerando a automatização que a IA foi capaz de realizar nos ataques de engenharia social, os olhos de todos os especialistas de segurança devem se voltar para o estrago em potencial que ela pode causar em contas expostas.

Esse quadro atual, por si só, já exige uma mudança no peso que a auditoria de acesso precisa ter em um esquema de segurança. Monitorar se uma credencial foi usada não é mais o bastante; é necessário monitorar o ciclo completo de abuso de credenciais: criação, uso comum, escalonamento de privilégio e reuso em outros sistemas, com trilhas de auditoria capazes de sinalizar padrões de comportamento anômalos antes que o dano seja irreversível.

E o fenômeno da IA agêntica não vai parar na exploração de contas. A estimativa do Gartner é que, até 2028, cerca de 50% de todos os esforços de resposta a incidentes em empresas ficarão concentrados em ocorrências envolvendo aplicações de IA construídas internamente. E muitas delas sendo colocadas em produção antes mesmo de passar por testes de segurança adequados.

Isso quer dizer que a IA agêntica é, ao mesmo tempo, a arma do atacante e o mais novo ativo interno que precisa de governança e monitoramento. E ambos irão dividir o orçamento de segurança em 2027.

2- Ransomware evoluído e superfície de ataque em expansão 

O ransomware continua sendo um dos tipos de crime cibernético mais lucrativos do mercado, e esse modelo não para de evoluir. Hoje, grupos de ransomware operam como empresas sofisticadas, oferecendo plataformas de Ransomware-as-a-Service (ransomware como serviço) que permitem que afiliados com pouco conhecimento técnico realizem ataques altamente rentáveis.

E quais são os alvos preferenciais desses ataques? Infraestruturas críticas, de saúde e educação, e órgãos públicos.

Esse crescimento acompanha a expansão da superfície de ataque das organizações. A migração para ambientes híbridos e multi-cloud pode trazer uma certa flexibilidade, mas também é responsável por apresentar novos desafios de gestão de identidade, erros de configuração e segurança de API.

Ao mesmo tempo, ataques à cadeia de suprimentos se tornam mais frequentes, com cibercriminosos comprometendo fornecedores de software, provedores de nuvem ou de serviços gerenciados para atingir milhares de clientes downstream através de relações de confiança.  

A tendência para esse setor é que as arquiteturas com maior modularidade e redundância deixem de ser apenas uma boa prática de disponibilidade e passem a ser também uma camada de contenção de ataques. Arquitetos e gestores de infraestrutura devem ter em mente que os sistemas segmentados limitam o raio de explosão de um ransomware ou de uma credencial comprometida, enquanto ambientes monolíticos tendem a propagar o incidente muito mais rápido.

Se somar a isso a chegada da IA agêntica conectada a praticamente toda a malha tecnológica corporativa, o resultado é uma superfície de ataque que cresce muito mais rápido do que a capacidade de mapeá-la.

3- Identidade como novo perímetro 

Como pudemos ver até agora, tanto o avanço da IA quanto a governança de identidades estão bem presentes nas expectativas do setor de tecnologia para os próximos meses. Já há um consenso entre analistas de que a identidade é o novo perímetro de segurança, e não mais a rede.

A estimativa é que, com o desaparecimento das fronteiras tradicionais de rede, as organizações comecem a investir em arquiteturas zero trust, autenticação multifator resistente a phishing e detecção contínua de ameaças à identidade.

O que isso significa na prática? Dois movimentos complementares podem começar a ocorrer dentro das empresas.

De um lado, veremos a gestão centralizada de usuários e acessos, unificando provisionamento, permissões e revogação de credenciais em um só ponto de controle. Esse movimento resultará em uma redução do risco de contas esquecidas ou de permissões acumuladas após mudanças de cargo.

Por outro lado, poderemos ver o fortalecimento de ferramentas de self-service que colocam o próprio usuário como primeira linha de defesa, ferramentas essas que possibilitam ações como: reportar e bloquear links maliciosos, redefinir credenciais com segurança e reconhecer tentativas de engenharia social sem depender exclusivamente do time de segurança.

Contudo, existe uma lacuna nesse cenário que deve ser considerada: há hoje no mercado uma carência de soluções específicas para detectar atividades ilícitas conduzidas por agentes de IA; ou seja, identificar quando esse comportamento ilícito não é humano. Possuir estratégias de detecção de anomalias e de login incomumnão deixa de ser essencial, mas grande parte das ferramentas disponíveis hoje ainda não foi projetada para diferenciar um ataque automatizado por inteligência artificial de uma ação humana mal-intencionada.

Essa é uma área que deve evoluir rapidamente ao longo de 2027, conforme os fornecedores de segurança estiverem correndo atrás do problema.

Somado a isso, há uma camada menos discutida: o risco de privacidade não vir mais apenas do vazamento de direto de dados. Segundo o Gartner, até 2029 a maioria dos incidentes de privacidade não serão causados pela exposição direta de informações pessoais, mas de inferências geradas por IA sobre indivíduos — uma vez que a IA consegue reidentificar pessoas ou inferir atributos sensíveis a partir de dados anonimizados, sem que seja necessário roubar ou comprar credenciais.

Esse cenário se conecta muito bem à tendência que começa a aparecer no radar de 2027, que é a soberania de dados deixando de ser somente uma questão de onde o dado está armazenado e passando a determinar também onde e como ele pode ser processado. Consequentemente, isso impactaria a arquitetura, estratégia de IA e operações a um nível global.

Para organizações que operam no Brasil sob a LGPD, essa é uma frente que vai exigir decisões de arquitetura, assim como de compliance.

4- Automação do SOC e resposta autônoma a incidentes 

No âmbito da defesa, a IA deve virar padrão operacional dentro dos centros de operações de segurança (SOCs). As plataformas de segurança começarão a utilizar a IA generativa e a IA agêntica para auxilinar no processo de triagem e investigação de incidentes, com o objetivo de reduzir o tempo de resposta.

O resultado disso serão SOCs cada vez menos dependentes de analistas, que, assistidos por inteligências artificiais capazes de processar milhões de eventos, verão seus times humanos menos sobrecarregados para tomadas de decisões estratégicas.

Há também a tendência de que, em seguida, a automação vá além da detecção. Iniciativas como o isolamento de dispositivos comprometidos, a revogação de credenciais maliciosas, a contenção de ondas de ransomware e a aplicação de medidas de remediação com mínima intervenção humana serão fortemente encorajadas no cenário que se constrói.

Porém, antes de adotar esse tipo de recurso, é necessário levar em consideração que nem todo fornecedor de segurança tem, hoje, capacidades verdadeiramente autônomas em todo o portfólio. Algumas soluções ainda dependem de aprovação humana em etapas críticas, o que não é exatamente uma limitação — muito pelo contrário — mas uma escolha de governança que cada organização deve avaliar antes de expandir o nível de automação em produção.

O que esse cenário significa para CISOs e gestores de TI no Brasil?

Essas tendências estão chegando a um mercado que já está sob pressão.

Segundo a Check Point Research, em junho de 2026, cada organização latino-americana foi alvo de aproximadamente 3.577 ataques por semana, uma alta de 25% sobre o ano anterior. Já o relatório da Acronis, baseado na telemetria da própria empresa, coloca o Brasil entre os três países com mais detecções de ransomware no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia; e o phishing segue como principal porta de entrada em mais da metade das tentativas.

Se a engenharia social já é o caminho mais utilizado, a IA que a torna mais convincente e mais rápida tende a ampliar um problema que já existe. Ao mesmo tempo, a estrutura para lidar com esse cenário ainda está em construção.

Juntando os pontos, há três frentes que os tomadores de decisão da área deverão levar em consideração para 2027:

  • Investimento: o orçamento de segurança deve se deslocar cada vez mais para a proteção da própria inteligência artificial — a categoria que mais cresce no mercado global — e para a segurança de identidade, e menos para soluções pontuais de perímetro de rede.

  • Governança: quem responde quando um agente de IA erra? Como auditar o ciclo completo de abuso de credenciais, e não só o momento do login? Como mapear o que pode ser inferido a partir dos dados que a empresa já anonimiza hoje? Essas perguntas vão sair do campo teórico e entrar na pauta de comitês de risco.

  • Operação: equipes de TI e segurança vão operar cada vez mais lado a lado com automação, self-service e resposta autônoma, o que exige repensar playbooks de incidente, capacitar o usuário final e definir com clareza quando — e o quanto —  podemos confiar na IA para agir sozinha.


Estar preparado para o que pode estar por vir não significa adotar todas as tendências de uma só vez, e sim entender onde a sua organização está mais exposta e definir prioridade com base em risco real.

Os especialistas técnicos da ManageEngine podem ajudar a mapear esse cenário e a desenvolver a melhor estratégia de segurança alinhada às necessidades do seu negócio, com as nossas soluções.

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